Vida Modular
Sociedade Modular - o jeito de viver nas grandes cidades
Em contraposição à vida integrada e fluida das cidades menores — em que pode-se ficar amigo de alguém no trabalho, conhecer a namorada na academia, bater um papo com um aleatório na padaria e outras possíveis situações que deveriam ser naturais de um ser humano — nas grandes cidades a vida é modular.
Módulos como família, trabalho, rua, academia, universidade, grupo de corrida, clube de leitura, jiu-jitsu, yoga, condomínio, restaurante, padaria, mercado etc, são enfrentados como ambientes com um único objetivo em si, não permitindo misturas. Amizades pertencem a um módulo próprio. Para alguém sair do módulo trabalho e integrar o módulo amizade, em um grande centro, é quase um projeto. Se der muita sorte, acontece. Mas o mais comum é não misturar as coisas.
Na academia, não se pode conversar com o ser ao lado; existe desconfiança da intenção, quase como se puxar um papo já viesse carregado de interesse, e a outra pessoa pensasse: "este ser não entrará no meu módulo amizade, vou cortar aqui".
A vida fica sob demanda, com cada grupo de pessoas — inseridas em um ambiente geográfico — cumprindo propósitos muito específicos. É simples testar: experimente chamar o seu colega de trabalho, que você vê quase todo dia, para tomar um café em um sábado de manhã; ele vai ter mil desculpas. Ou pior, faça um comentário alegre e inteligente para alguém na academia. Provavelmente não haverá resposta, pois a pessoa estará de fone. Na melhor das hipóteses, ela tirará o fone, com expressão de incômodo e perguntará "Quê?!".
Existem módulos mais abrangentes, como se fossem condomínios fechados, em que parece que existe uma vida completa; são as universidades, os clubes, os bares, as amizades. Muitos já carregam o propósito de socializar em si, como objetivo do módulo. Quase como colocar o descanso na agenda, sabe? E existem módulos mais restritos, com propósito único: academia, rua, mercado. Nestes, não ouse misturar as coisas.
A vida nos grandes centros ficou inerte. É a solidão na multidão. Você encosta na pessoa do metrô, fica a 5 cm dela na escada rolante, sente o perfume ou o mau cheiro dela, sabe o que ela está lendo, o que ela está escutando, sabe se ela está triste ou feliz — mas essa pessoa está a quilômetros de distância, em um universo, em um módulo que não te pertence. Pois vocês só se interceptam ali no módulo rua e, neste módulo, nossa sociedade moderna, principalmente nos grandes centros, não admite mais interação.
Eu, particularmente, não tenho a mínima noção de como alguém cria um módulo família em um grande centro.
E nada indica que esta situação (des)humana vai melhorar antes dos espertofones serem extintos.
Autor: P M N
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